terça-feira, 1 de outubro de 2019

Uma miúda peculiar


Quando nasceu, teve o infortúnio de não conhecer o seu avô paterno. Ele bem que esperou por ela, mas cometeu o erro de escolher nascer 11 dias depois dele partir.
Não sei porque motivo escolheu o dia 30 de dezembro para o fazer, mas sei que detesta esse dia desde sempre.
Tem consciência de que nesse dia, o seu nascimento provocou dois sentimentos: alegria por ter nascido com saúde, e tristeza por faltar alguém importante na sua vida.
Ela podia ter nascido com paralisia cerebral ou não nascer de todo. A sua mãe entrou em trabalho de parto, mas quem a atendeu na maternidade, preferiu continuar a ver a novela Gabriela, Cravo e Canela. Foi para casa com um possível nado morto na barriga.
Mas...valeu-lhes um anjo. Como sempre.
Não sei se o seu avô teve alguma coisa a ver com isso, mas um milagre aconteceu.
Era suposto nascer na maternidade Júlio Dinis, conforme estava preparado, mas foi nascer no vizinho do lado chamado de Santo António. Afinal, os escritores não fazem milagres mas os santos sim.

Depois deste nascimento um pouco atribulado, era a bonequinha que passava de colo em colo. Foi a mascote na primária, e confessa que sempre continuou a sê-lo até ao 12°ano.
Era franzina, tímida, introvertida e pequenina. Um chamariz de bullying ambulante.

Nunca foi pessoa de coleccionar amigos. Nunca os escolheu. Eles vinham e iam aleatoriamente mas com um propósito. Mais tarde percebeu isso.
Sempre gostou de se relacionar com gente mais experiente, nomeadamente, os idosos. E com crianças peculiares. Não gosta de lhes chamar especiais, porque especiais somos todos, ou quase todos.
Acredita que são estas pessoas que nos acrescentam valor, que nos fazem crescer por dentro e por fora, tal e qual como fermento no uso culinário.

Esteve sempre rodeada pela diversidade funcional, aliás, como qualquer outra pessoa, mas tinha um "problema" que outros provavelmente não tinham.
Ela Importava-se.
Não era Indiferente.
Era Curiosa.
Por fim...era Peculiar. E ainda é.

Sem se aperceber, na primária tinha um amigo autista. O melhor de todos.
Fora da escola e nas idas ao café, tinha o amigo Júlio com trissomia 21. A sua avó dizia que era o seu namorado Júlio, porque não arredada pé sem lhe dar um beijo.
No 5° e 6° anos, preferia estar com os meninos apelidados de "atrasados mentais" da APPC que ficavam na sua sala, do que ir para o recreio saltar ao elástico.
Mudou de escola, deixou de viver a deficiência de perto. Perdeu contactos, mudou de rumo.

A deficiência para ela tinha deixado de ser o foco. Passou a esquecer o óbvio, as dificuldades e falta de oportunidades que a diversidade enfrenta todos os dias.
Perdeu-se no tempo e nas suas origens.
Estaria ela destinada a regressar à sua infância?
Ela hoje pode afirmar que É o que Era antes. Tudo o que semeou na infância, colheu na sua vida adulta.
Tinha de ser assim.
Se não o fosse, porque teríamos de nascer crianças e não adultos?
A sua maturidade desde cedo se afirmou por causa da infância rica que teve. Mas faltava algo. Olhar nos olhos do seu avô que não conheceu.
Por essa razão, talvez por força do destino, foi trabalhar para um lar durante um ano como ajudante-familiar. Não sei se ela fez o seu trabalho bem, mas tem a certeza de quem Não o Fez. Aprendeu muito enquanto lá esteve e também viu o que não queria. Infelizmente, não somos todos feitos do mesmo fermento e cada vez há mais bolos estragados na sociedade.
Tanto na educação como no trabalho social, há uma desumanização crescente das competências profissionais. Não se treinam seres humanos nas escolas e nas faculdades. Treinamos máquinas registadoras.

Precisamos de mais pessoas peculiares e "estranhas" ao serviço.
E uma vez que ela é estranha, vou pedir à senhora Peregrine, para que a deixe viver na sua casa.





terça-feira, 20 de agosto de 2019

Acessibilidades: o que é isso?



Vivo em Amarante desde 2016 e, pela primeira vez, conheço uma cidade na sua plenitude, não apenas pelos seus factos históricos que a contemplam, mas pelo seu lado negro e obscuro sobre a falta de acessibilidades. Canto por canto. Esquina com esquina.
A minha cidade, como tantas outras por aí, não é acessível a pessoas com mobilidade condicionada. É antiga e o património tem de ser preservado. Na lei, que define o regime das acessibilidades, existem exceções à regra porque sim, porque tem de ser, porque assim é definido pela cabeça de um especialista na coisa.
Por isso, importa dizer, que esta cidade como tantas outras, não vive para Todos os seus habitantes.

Durante dois dias, tirei a prova dos nove passeando pela cidade, numa cadeira de rodas eléctrica. Vi o que muitos não conseguem decifrar porque não estão focados no problema.
Porquê escolher uma cadeira eléctrica em vez de uma manual?
Porque é ela que me dará respostas completas a tantas questões. É ela que vai complicar a vida a quem tem a faca e o queijo na mão, e nada faz.
Olhamos para uma cadeira de rodas eléctrica e pensamos ter toda a autonomia, porque nos liberta da ajuda de outra pessoa. Engano. Quando quiseres subir um simples passeio sem rampa, não consegues porque é alto, e perceberes que vais ter de andar pelo meio da rua, vais desejar estar sentado numa cadeira manual e ser ajudado por terceiros.
Uma cadeira de rodas eléctrica é boa para locais adaptados a ela, e não o contrário.
Investir num carro adaptado para levar a tua cadeira, sem a cidade ter as devidas acessibilidades, é dinheiro deitado fora.
O preço de uma cadeira eléctrica é uma autêntica exploração sem nexo, e será a seu tempo obsoleta por força das circunstâncias - pela Cidade onde vives.
Depois, aqui, também não existem transportes públicos adaptados. É outra lacuna insensível.

Durante esta aventura, tirei muitos apontamentos, corei e senti-me envergonhada.
Fotografei horrores, pesadelos, corei e senti-me envergonhada de novo.

Vi um completo desrespeito para com os outros.
Vi a ignorância dos olhares e arrogância bem de perto.
Vi o egocentrismo em acção.
Vi inúmeras inutilidades materiais e imateriais.
Vi onde o dinheiro é mal gasto e onde deveria ser empregue e não é.
Vi o que falta e o que está a mais.
Vi associações, instituições ou entidades que representam muito mal o que defendem.
Vi o mundo através de uma simples cadeira de rodas eléctrica.
Alguém aí com coragem para fazer o mesmo?

Vamos ao que interessa.
Este texto, não é, nem pretende ser um texto político ou jurídico. Deixo essa matéria para quem dela entende ou pensa entender. Serve para sensibilizar a quem nunca pensou muito sobre isto.
Falemos de Barreiras Arquitectónicas.

Podem as barreiras arquitectónicas causar sofrimento, ou até mal-estar, para quem depende de uma cadeira de rodas para se deslocar?
Acho que não é necessário ser um guru para adivinhar a resposta.
Podem e causam mesmo. Nas pessoas com deficiência e nos que cuidam delas.
Depressões, frustrações, sentimentos de ódio e revolta, estados de constante negação de si próprio, mazelas físicas e muito mais.

Todos já ouviram falar do decreto-lei imposto pela UE, para que os Estados adaptassem os seus edifícios e estabelecimentos, em que, passo a citar "A promoção da acessibilidade constitui um elemento fundamental na qualidade de vida das pessoas, sendo um meio imprescindível para o exercício dos direitos que são conferidos a qualquer membro de uma sociedade democrática, contribuindo decisivamente para um maior reforço dos laços sociais, para uma maior participação cívica de todos aqueles que a integram e, consequentemente, para um crescente aprofundamento da solidariedade no Estado social de direito.", blá blá blá pardais ao ninho.

Nunca é demais perguntar, onde está o Estado social de direito? O que anda a fazer o INR? Ao contrário do que possam estar a pensar, o INR tem feito muito (pouco), isto é, a sua missão corresponde a 5 verbos apenas: promover, fiscalizar, instruir, emitir pareceres e apoiar. Acrescentaria outro verbo: ENGANAR.

Andam a enganar Todos.
Desde os assessores e adjuntos dos membros do governo até ao Presidente da República, na lista das precedências do protocolo do Estado Português, ninguém quer saber das dificuldades na vida de um deficiente, com exceção de um deputado que, ironicamente, também usa uma cadeira de rodas para se deslocar e defende muito bem os nossos direitos. Foi preciso ir um "rodinhas" trabalhar para a AR, para se fazerem as alterações necessárias na questão das acessibilidades dentro da AR.
Tivemos 10 anos para adaptar Portugal ao regime das acessibilidades. Pouco ou nada se fez.
Durante 10 anos, crianças em tratamento de patologias oncológicas, foram depositadas em contentores num dos hospitais de referência do norte, e seria uma situação provisória. 10 anos!
Gastamos milhões de euros para construir 10 estádios em tempo recorde, mas não fomos capazes de cumprir uma directriz europeia relativamente às acessibilidades, na defesa dos direitos de pessoas com deficiência.
Estão à espera do quê?!!

Alguns cidadãos atentos, vão alertando para estas questões, em especial, aqueles que vivem o problema.
Foi preciso um Eduardo Jorge dormir à porta da AR para se despertar na questão da vida independente. Foi necessário a associação Salvador desafiar o primeiro-ministro e os deputados para um treino de "crossability", naquele que seria o desafio mais duro das suas vidas. Isto parece um circo de aberrações e marionetas, não parece?
Chego à triste conclusão de que para se fazer alguma coisa pela deficiência, é preciso viveres a deficiência. Se fores um tipo " normal" nem te lembras que ela existe. É por esta razão, que o estado das coisas não avança e vai-se fazendo, aos poucos.

No tempo em que o património arquitectónico vale mais do que o bem-estar do ser humano, ou uma catedral move milhões de euros para a sua reconstrução sem que passe primeiro a ser alimento no prato de uma criança faminta, por tudo isto não podemos esperar muito do Homem nem de um decreto. Partem os homens, ficam os calhaus.

Tenham também a coragem de conhecer a fundo a cidade onde vivem. Façam registos de todas as situações anómalas encontradas na via pública, edifícios e estabelecimentos públicos e privados. Procurem por elevadores inúteis onde não cabe uma cadeira de rodas; passeios sem rampas de acesso para descer ou subir; postes no meio dos passeios; a falta de wc's públicos; estabelecimentos comerciais com dístico de atendimento prioritário mas sem acesso ao interior, por não ter rampa ou porque a porta é demasiado pequena; reparem na altura das caixas multibanco; verifiquem a quantidade de escadas que embelezam os edifícios sem haver outro tipo de acesso; vejam também quantas clínicas, centros de saúde e outros locais de serviços públicos, que não têm um único lugar de estacionamento reservado a pessoas com mobilidade condicionada; etc etc.
Tornem estes relatórios públicos, enviem a mesma informação às entidades (in)competentes para sentirem na pele a mesma vergonha. Mas não basta! O tribunal europeu terá de sancionar esta irresponsabilidade.
Sejamos proativos. Dá trabalho, mas absorvem-se novas aprendizagens.
As redes sociais são um bom instrumento de denúncia, mas só servem para ficarmos carecas de tanto stress.
Um dia podem cair numa cadeira de rodas, e vão lembrar que alguém andou a "trabalhar" para vocês, enquanto viviam as vossas vidinhas na indiferença.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Os Degraus de Escher


Enquanto escrevo este texto, estou a ouvir Annie Lennox, daí sentir a necessidade de lamentar, se o que escrevo aqui hoje, sai um pouco dos contornos da normalidade e entra ao mesmo tempo num campo enigmático.
Provavelmente, vão pensar que tudo o que escrevo, já sai desse registo apelidado de "normalidade", que uso demasiadas palavras e pensamentos inusitados, de que há verdades que têm de ser ocultadas porque o tempo determina quando se deve falar a verdade. Mas o tempo corre, voa, e a verdade nunca deve aguardar numa sala de espera.
O que me apetece descrever aqui, é a forma como nos movemos no universo. Como subimos e descemos escadas, uns com a cabeça erguida e outros, com os olhos postos nos degraus, enquanto sobem ou descem.
Acredito, que o ponto onde nos encontramos na origem do nosso ser, é o ponto de encontro no final do caminho. Cada patamar ganho, é igualmente a perda da nossa inocência, e nunca terei vergonha de quando descer uma escada, admitir que a desci para crescer interiormente.
Já vão entender aonde quero chegar, com tamanho disparate escrito no andar de cima deste texto.

Quando comecei a trabalhar no ramo livreiro, como caixeiro-ajudante 1º e a ganhar sessenta contos, isto em 1998 para ser mais precisa, nunca adivinhei onde esta paixão pelo que aprendi a fazer, ia parar. Fiz de tudo, sempre que me era permitida pela chefias, para absorver a informação possível sobre toda a gestão comercial. Tive a sorte de encontrar os melhores colegas no ramo, e dos mesmos terem a disponibilidade para ensinar e para aprender com uma novata inexperiente como eu. Afinal de contas, era o meu primeiro emprego depois de sair do secundário inacabado. Nunca fiz formação superior, nem podia por enquanto, mas a minha curiosidade pelo meio envolvente, era muito superior a uma licenciatura, mestrado ou doutoramento.
Em 2002, um pouco antes do Natal, receberia um presente maior. Era convidada pelo administrador da empresa, a integrar no grupo das chefias, seria portanto a nova "ponta-de-lança", como me nomeou na época. Lembro de ir ao dicionário, ver exatamente a definição de ponta-de-lança, para não cometer nenhuma gafe sobre o desafio que se avizinhava, e o Dic falava num fulano que tinha de marcar golos. Ora bem, tinha de atingir os objetivos propostos, assim entendi.
Fui subindo os degraus do mérito, do conhecimento, da honra e privilégio de trabalhar rodeada de sabedoria, e acima de tudo, esses degraus não tinham um ponto de origem nem fim. Eram infindáveis...
Não tive de puxar tapetes a ninguém, nem lamber botas, nem tropeçar em nenhum obstáculo enquanto ia subindo a montanha. Disso me orgulho. Conquistei muitas vitórias, quando muitos esperavam que uma piquena não tivesse nada para dar. Somei muitas amizades e invejas. Também vi muitas vezes nas costas dos outros, as minhas. E mais importante de tudo, aprendi mais do que um aluno na faculdade. Isso vos garanto. Geri lojas sem um curso de gestão, apenas exerci aquilo com paixão. Costumava dizer, que fazia o que gostava e ainda por cima o patrão fazia questão de me pagar.
Foi graças a esta paixão que conheci outra, ou neste caso, outro. Conheci um escritor com quem fiz questão de casar, e casava com ele todos os dias até ao fim dos meus. Pena não o ter encontrado mais cedo...mas a vida é assim, no universo só nos movemos quando ele quer.
Quando chegou a altura de avaliar, se ainda fazia sentido ou não, continuar a subir e descer degraus na Bertrand, resolvi encerrar as minhas contas com um balanço positivo. Já trazia uma super bagagem que me iria obrigar a pagar taxas elevadíssimas num aeroporto qualquer. Foram 18 anos! Chega!

De gerente, numa grande rede de livrarias com história no livro de records do Guinness, passei a limpar rabiosques a velhinhos num lar. Chocados com a linguagem, ou com a diferença factual entre as profissões? Não deviam estar. É, foi, ainda mais gratificante do que vender livros. E continuava a limpar se me tivessem deixado.
Mas hoje em dia é assim. Salta-se de emprego em emprego, sem saber o dia em que deixaremos de nos sentir como cangurus numa planície Australiana.
Sim, é verdade que chorei muito quando passei de uma realidade para a outra, mas são os tais degraus do Escher, estas escadas são também infindáveis e deveras reconfortantes. Reconfortantes, no sentido de estarmos em constante aprendizagem e evolução natural. Tenho para mim, de que nunca devemos negar este crescimento pessoal. Nunca se sabe, se não encontraremos a nossa verdadeira vocação.

Entretanto, durante o caminho, continuo a achar que tenho um vazio por preencher. Quero entrar na faculdade. Não na faculdade da vida, essa já entrei há muito, quero é tirar um curso superior. Tirar, como quem diz, oferecer a mim mesma, porque não vou tirar a ninguém, vou apenas me presentear.
Há lacunas, grandes buracos negros, na área social.
Quero seguir esse caminho certamente, e no entretanto, fazer um curso de língua gestual, outro grande buraco de ozono.
Já terminei o 12º ano através do centro qualifica, que me permitiu concluir o mesmo através da formação modular de UFCD's. Essa etapa está cumprida, agora falta passar à fase seguinte: colocar em prática o meu plano universitário.

Como vos disse, o universo trata de fazer o puzzle com todas as peças necessárias ao nosso propósito. Há quem percorra uma vida inteira sem perceber o que veio cá fazer, por outro lado, há quem saiba perfeitamente o que quer e por onde seguir.
De jovem patinadora franzina, a aluna de teclado/orgão, de aspirante a engenheira informática, a livreira apaixonada, entretanto mãe de dois filhos e casada com a "d"eficiência, de ajudante-familiar, a cuidadora informal, a sonhadora em vestir uma capa negra, usar cartola e bengala, e não acabará por aqui com certeza...
Sou capricórnio, o que esperavam?! E por favor, tenham cuidado quando escreverem ao som do "No more "i love you's"" ou do "Whiter shade of pale". Sai isto...




terça-feira, 2 de julho de 2019

Abdicar de viver?

Um dia destes, liguei a TV e estava a dar o programa da Cristina. Tive a oportunidade de absorver parte da conversa que fazia com dois convidados. O tema foi sobre como é cuidar de um familiar com deficiência, e o que as leva a abdicar das suas vidas em prol desse familiar.A certa altura, a apresentadora pergunta ao jovem de 22 anos, porque razão toma conta do seu irmão com tanto amor e dedicação, abdicando assim dos seus sonhos e de fazer outras coisas normais como todos os outros jovens.
Até certo ponto, entendo esta curiosidade por parte da apresentadora, admitindo até, tratar-se de uma curiosidade que afeta grande parte da sociedade.
Afinal, o que se espera nos dias de hoje, de jovens mecanizados e supostamente insensíveis em questões de valores?
Sabem qual foi a resposta do rapaz à curiosidade da Cristina? A mais óbvia. Disse apenas que ama o irmão e que tinha de ajudar a mãe. Faz planos profissionais e pessoais, fazendo intenções de levar o irmão a morar consigo no futuro.
Quantas pessoas depositam deficientes num lar, renunciando os "problemas" que estes lhes trazem para viverem as suas vidinhas descansadas? São imensas. 

A grande lição que este jovem dá a muitos de nós, é que "abdicar da vida" significa compromisso, responsabilidade, e que não é egocêntrico. Que este amor pelo irmão, lhe dá muito mais do que dá a qualquer outro que julga ter uma vida perfeita. 
Portanto, não se trata de abdicar de viver a vida. Trata-se de valorizar ainda mais a vida, dar e receber Amor.

Nelson Mandela, partiu há muito, mas as suas palavras são imortais:

"Compromisso significa que ambas as partes envolvidas deviam abdicar de alguma coisa em favor da outra, significa ter capacidade para lidar com as exigências, os medos, da outra."

Quem não gosta de ter uma vida "normal", sem dificuldades, sem sofrimento, submersa em bens materiais, viver de aparências, usar máscaras, seguir os habituais padrões impostos pela sociedade, etc...?
Não sabem o que a vida vos reserva...

Atiro algumas perguntas para a atmosfera:.
- O que eras capaz de fazer por um familiar ou amigo com uma deficiência?
- Que sentido dás à tua vida? Saberás viver de verdade ou também abdicas das pequenas trivialidades que te colocam um sorriso no rosto?
- Sabes que se aprende mais, quando estamos rodeados de pessoas inspiradoras do que com a nulidade à nossa volta?
- Tens mesmo a noção, que não são os inadaptados a ter de se adaptar ao mundo, mas sim o contrário?

Continuei a pensar nesta frase "abdicar da vida". O que significa esta frase para mim?
Para mim, abdicar da vida significa morrer, renunciar a algo e ignorar o que me rodeia.
Abdicar da nossa vida quando decidimos cuidar de alguém, quer dizer que deixamos de levar uma vida miserável para ser ainda mais miserável?
Ou será, que deixamos de ser úteis a nós mesmos para nos tornarmos verdadeiramente imprescindíveis no todo?
Eu sei que muitos olham para o meu caso como "aquela rapariga que abdicou da vida para viver com um homem cheio de problemas de saúde. O que vai ser daquela miúda! Que Deus a ajude". E não é que Ele ajudou mesmo? Entregou a Sua paixão nas minhas mãos e mostrou-me que a vida não é um mar de rosas, nem amor numa cabana, é tudo junto. Porque a vida só faz sentido se vier com tudo incluído. Esqueçam a meia-pensão...😂

Vivi com um homem aparentemente saudável, a nível físico e mental, mas não tinha sonhos nem objetivos, e com isso achava que me podia levar com ele para um buraco onde nem o SIRESP nos encontrava. Não tive alternativa senão dar-lhe um pontapé no ego e na vaidade, porque pensava que podia tudo sobre uma mulher, e na verdade, em nada evoluía ao lado de uma pessoa desta espécie. Quilhou-se! (em bom termo tripeiro).
Entretanto, conheço um homem com diversidade funcional e descubro uma coisa incrível: a cadeira de rodas é apenas um acessório, um adereço.
Enquanto um era livre, vivia preso na sua mediocridade. O outro, vive preso numa cadeira de rodas, no entanto tem asas, sonhos e faz acontecer todos os dias.
A vida é matreira, não é?
Não era necessário descrever que é um homem fantástico, inteligente, que sabe respeitar as mulheres, é divertido, apaixonado pela vida, gosta de viajar, de comprar lingerie para a mulher (era escusado revelar, mas é só para verem a sua perspicácia, audácia e cativação), gosta de escrever, ir ao cinema, ouvir música, de fazer coisas absurdas (no bom sentido) com os pés, etc etc...
Depois de lerem isto, têm a coragem de pensar que eu abdiquei de viver, ou que este jovem também abdica de ver o irmão sorrir? 

Só para rematar pra golo, e concluir tal e qual como comecei este texto, pelo que tenho conseguido acompanhar do programa da Cristina, para já, é a única "saloia" da televisão portuguesa que mais tem sensibilizado a opinião pública para as questões da deficiência. Não usa estes exemplos por sensacionalismo ou aproveitamento para aumentar as audiências. Servem para mostrar que existe alguma humanidade e amor no meio disto tudo. Por isso, não tenham vergonha de serem um pouco saloios como eu ou como a Cristina.
Não sejam umbiguistas, e tenham a coragem de olhar nos olhos dos vossos pais velhinhos e dizer: "Nunca abdicarei da árvore da vida que plantaram, alimentaram e viram amadurecer."
As pessoas não são descartáveis, nem se separam nos contentores amarelos, azuis e verdes, só porque vocês querem andar num Tesla.












quarta-feira, 12 de junho de 2019

Alice, no país dos loucos



Desde que escolhi fazer o Caminho na minha vida, pelo trilho mais difícil, ganhei e perdi muita coisa. Provavelmente, ganhei mais do que perdi. Essa é a grande vitória que vou somando dia a dia.
O afastamento e o aproximar de algumas pessoas, fazem parte deste equilíbrio, que aos poucos fui aceitando com naturalidade. Confesso que não foi fácil.
Ainda hoje, não aceito certos distanciamentos de amigos e familiares, porque sempre gostei do conceito de união. Mas tive de aprender a conviver com meia solidão e meia lucidez à força.
Interiorizei, que há alturas em que temos de permanecer afastados, para percebermos a falta que as pessoas nos fazem, sem elas saberem.
Mentalizei-me, que é necessário abrir novos caminhos para conhecer novas vidas, que nos acrescentam outros valores.
Fiquei mais perspicaz em apanhar certos "peixes". Aqueles peixes que nos lançam olhares de odiozinhos escondidos na hipocrisia de um sorriso leve. E nem precisei de anzol...
Hoje, sei distinguir quem é meu amigo e quem não é, graças ao Caminho.

O que sou hoje, nasceu comigo no dia 30 de dezembro de 1978. Sinto que devia ter nascido uns dias antes, não fosse a alegria e tristeza que me acompanham desde esse dia. Não nasci a tempo de conhecer o meu avô paterno, mas conheci nesse dia a saudade. Como se pode ter saudade de uma pessoa que não se conheceu? É verdade, sinto, e sinto igualmente que durante toda a minha vida me acompanha uma sombra impertinente. Talvez por isso, por este sentimento de perda, tenha sido a minha avó a tomar conta de mim, desde pequena até à minha adolescência. Chorava no colo de toda a gente, mas era no colo dela que encontrava o sossego, foi o que a minha mãe me contou.
Acredito em anjos, e sei que cada um de nós tem um. O meu talvez seja o meu avô, não sei.
Uma vez tentei contactar o meu espírito-guia, mas só ganhei para o susto. Deixo-o lá no canto dele que eu fico no meu, é melhor para ambos.
Tive uma infância muito feliz, rodeada de afetos, de primos e primas, de convívios infindáveis entre todos os familiares e amigos. Romaria sem a família Soares, não era romaria. Foi durante muitos anos, o legado da matriarca da família. União. Uma vez, sem o meu avô por perto, foi esse o nosso pacto, até a minha avó finar-se de amor.

Após a Alice partir, o país das maravilhas nunca mais foi o mesmo. Mas sei que a minha avó Alice sempre tomou conta de nós, e continuou a tomar-me no seu colo para eu sossegar.
Conforme faço o Caminho, vou-me cruzando com gente insignificante, que depressa se tornaram importantíssimas e imprescindíveis no meu crescimento interior. Assim como, com gente que colocava num altar, e num ápice iam caindo, um a um, tal e qual como santos mal canonizados por milagres que nunca fizeram.

Eu sou feliz quando estou por perto dos malucos. São esses alienados mais mentalmente saudáveis do que muitos "certinhos" que vemos por aí. Esses loucos são apelidados de deficientes, incapacitados ou inadaptados.
Por experiência própria, posso afirmar convictamente, que estes tolinhos são mais meigos, mais verdadeiros, mais solidários (muitas vezes sem saberem o que isso significa), são genuínos.
Vivem por isso num mundo à parte, só deles. Como eu gosto de estar no mundo que não é o meu! São fantásticos!
Aprendo todos os dias com eles, com os doidivanas. Têm um sorriso contagiante e um abraço mudo, silencioso, que dura uma eternidade...que tão bem sabe!
Fotos de Pedro Costa
Já alguém dizia que "A arte de ser louco, é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal", e eu sou tudo, menos normal. Aceito essa dádiva todos os dias.
Todos os dias, desde o dia em que nasci, sou uma pessoa em crescendo, graças à audácia de me afirmar como sou. Sem medo de julgamentos, de críticas, de desprezos....porque a felicidade, aos olhos dos outros, é pura loucura.

Sejam loucos felizes!!

O tempo passa mas os ventos não mudam

Há 118 anos cumpriu-se um casamento sem homem. Duas mulheres movidas pelo amor, casaram-se pela igreja. Sem ninguém saber, e para conseguirem este feito, uma delas teve de se transformar num "ele", iludindo assim um padre e uma aldeia inteira. Perderam a sua identidade a cada vez que o seu logro era descoberto. Era o sacrifício que teriam de pagar. Mudar de nome e de lugar era o fardo deste Amor.
Não há lei que se sobreponha ao maior dos sentimentos!
Não há caça às bruxas que se faça com justiça, sem entendermos que é o preconceito a ser caçado primeiro!
Este casamento, representou e ainda representa, uma vergonha para a igreja e para a sociedade, que se movem sobre as leis e regras impostas por alguém. Quem, afinal? Quem tem tamanha autoridade sobre os homens e as mulheres?
Deus??
Não. Não façam de Deus, Satanás!
Ecce Homo que nos mostrou o Amor! Yeshua.
Quando se nega o Amor, estamos a cometer a maior das blasfémias. Estamos a renegar a Deus, a Cristo.
Alguém dirá que é contranatura. Dois homens, duas mulheres...
E se fossem dois machos e duas fêmeas?
O fenómeno de partos virgens no mundo animal, é cada vez mais habitual! Assustados? Naaaaa....Já toda a gente sabe, que existem na natureza animais assexuados que não necessitam de acasalar com um macho ou com uma fêmea para se reproduzirem.
Sendo assim, já ouviram falar nos hermafroditas? Não, também não são aberrações. É a confirmação de que a natureza encontra um meio de sobrevivência.

Hoje, no ano de 2019 que se cumpre, o Amor, continua a ser lavrado como assunto tabu. Uma vergonha para as leis dos homens! No Amor não existe homossexualidade e lesbianismo! Essa foi a forma que descobrimos de apelidar e distinguir a aberração proibida. É simplesmente, Amor.
E este casamento entre duas mulheres nunca foi anulado, continua válido portanto.
Assim como o meu. Foi igualmente estudado por um padre, para se perceber se era válido ou não, uma vez que o macho anda numa cadeira de rodas, tem paralisia cerebral, o que podia invalidar a "procriação da prole por meio de alguma cooperação sexual" afeta a um matrimónio realizado através da igreja.
O tempo passa, mas os ventos não mudam, 118 anos depois.
Foto de Pedro Costa 






terça-feira, 4 de junho de 2019

Estatuto do cuidador informal não é o RSI nem o IAS. É justiça!

O tio Fernando com o Nuno ao colo

Com os papás 

A mana Iva no colinho do mano

Quando afirmo que somos prováveis pessoas com diversidade funcional, estou a considerar que haverá, provavelmente, mais cuidadores informais. É um facto.
Nunca imaginamos essa possibilidade porque o mal só acontece aos outros. É certo, que também não vamos andar constantemente a pensar que o azar nos vai bater à porta, mas estamos preparados quando isso acontecer? Não.
Se estivessemos prontos, em primeiro lugar não nos questionavamos "porquê a mim?"; em segundo, tomavamos precauções quando escolhemos viver numa casa inacessível; em terceiro, já existia um estatuto de apoio e proteção para quem tem de cuidar.
Realidade: somos cuidadores desde o berço até ao caixão.
A placenta aconchega o bebé durante nove meses. O colo da mãe, ou do pai, protege o recém-nascido até ao dia em que começa a andar. A criança tem a sua primeira noção de cuidador ao brincar com um boneco, e posteriormente, quando pede o seu primeiro animal de estimação. Os pais, os avós e restantes familiares, são a base fulcral do desenvolvimento físico, intelectual e emocional da criança, até à idade adulta. Quando já adulta, sentirá a necessidade de gerar outro ser, que irá cuidar da mesma forma, como os seus antecessores. Os pais, inevitavelmente, vão atravessar o período em que precisam dos filhos para cuidarem deles, até ao seu eterno descanso.
Passamos a vida a cuidar e nem damos conta!
Por isso, eu não escolhi o abismo quando cuido do meu marido, com paralisia cerebral desde o berço. Eu aceito a realidade como ela é.  Eu abraço o ciclo da vida. É o meu propósito. É a minha missão e faz todo o sentido que seja assim.
Não sou especial, nem ele o é. Não queremos esse rótulo.
Somos únicos no meio da diversidade.
Somos ímpares e versões originais de nós mesmos.
Mas entre estas singularidades, temos de ter direitos. Se somos cuidadores informais à força ou por amor, isso significa que outros vão ser libertados dessa obrigação. O Estado. Vamos deixar de trabalhar, de ter a nossa independência. Vamos abdicar dos nossos sonhos, ou adiá-los. Não teremos férias nem reformas confortáveis...
Vale a pena lutar por este estatuto?
Vale a pena amarmos os outros?
É disso que se trata de quem cuida! Amar.

No meu caso, cuidar é isto e muito mais.
Levantar o nuno de manhã, e transportá-lo até ao WC com a força de braços. Sentá-lo na cadeira, ou deitá-lo na cama para fazer a higiene pessoal. Desfazer a barba. Vesti-lo. Dar-lhe o pequeno almoço. Levá-lo ao trabalho. Permanecer lá para o que ele necessitar, idas ao WC e para lhe dar de comer. Coçar-lhe o nariz ou limpá-lo, se necessário. Entretanto, já tirei a cadeira de rodas manual do carro, um par de vezes. Monta, desmonta, tudo com a força do esqueleto. Passar um creme nas costas quando está com alguma dor, administrar medicação que toma com regularidade, estar atenta ao surgimento de possíveis escaras, etc.
Cuido igualmente de dois filhos, pensando bem e no fim das contas, são três. Tenho apoio da minha família adquirida, a mãe, pai e mana do Nuno. Tenho ajuda dos meus pais, quando estão por perto e quando podem...a saúde é frágil e não deixa muito...
Há muito afeto e amor. É o que vai segurando todos os alicerces. Imaginem se o Estado comparticipasse nisto! Se as instituições se responsabilizassem por ter condicionado a vida de alguém através da negligência!
Hoje nós, amanhã vós!
O casal que ainda melindra muita gente 😊